BIOGRAFIA: SEBASTIÃO, O MESTRE DO TROMBONE - O soberano do canela seca e o legado que moldou o maestro
Na galeria dos imortais do Filarmônica Grupo Musical 2 de Janeiro (F2J), o nome de Sebastião brilha com a soberania de quem ajudou a fundar a sonoridade identitária da nossa música, com os seus 89 anos de idade, este exímio profissional e mestre é uma das figuras mais reverenciadas da chamada "Grande Era" da instituição. Dono de uma técnica irretocável e de uma embocadura lendária, Mestre Sebastião tornou-se a personificação do trombone de vara, mais especificamente do tradicional e desafiador estilo conhecido popularmente como "canela seca" (o instrumento puro, sem o recurso de chaves ou pistões, que exige precisão milimétrica e ouvido absoluto).
A importância de mestre Sebastião para a história recente da F2J ganha contornos de profunda emoção na linhagem de regência da casa. Foi ele o responsável por iniciar, lapidar e ensinar o hoje maestro Eduyr Pereira da Silva a dominar com maestria o trombone de vara canela seca. Transmitindo os segredos do deslize da vara, a pressão exata do sopro e o respeito ao tempo musical, Sebastião não entregou a Eduyr apenas a técnica de um instrumento, mas sim a herança de uma era de ouro onde a música era sinônimo de sacerdócio cultural.
Com quase nove décadas de vida, Mestre Sebastião representa o ponto mais alto da ancestralidade e da dignidade do músico baiano. Sua trajetória é um monumento ao compromisso com a arte popular e sua figura na F2J é recebida com a reverência devida aos reis da retreta. Ele é o elo de ouro que ensinou o mestre de hoje, garantindo que o som altivo e imponente do trombone de Canavieiras permaneça fiel às suas raízes mais profundas.
História: a extensão do braço e a alma do sopro
O salão de ensaios da Filarmônica 2 de Janeiro silenciava-se de uma forma diferente quando o mestre Sebastião puxava a vara do seu trombone, ver aquele mestre, um gigante de 89 anos de vivência e sabedoria, erguer um instrumento de metal dourado era como testemunhar um ritual sagrado. O trombone de vara canela seca parecia uma extensão mecânica do seu próprio corpo; não havia chaves para facilitar o caminho, apenas o movimento preciso do braço e a intuição cirúrgica de quem sabe exatamente onde reside cada nota no espaço vazio do ar. O maestro Eduyr, hoje à frente da instituição, fecha os olhos e consegue voltar perfeitamente ao tempo em que se sentava ao lado daquele mestre para aprender. Lembra-se do rigor afetuoso de Sebastião, que não admitia uma nota aproximada ou um fraseado sem alma.
— O canela seca não aceita mentira, meu filho — costumava dizer Mestre Sebastião, com a voz firme de quem atravessou as décadas comandando o naipe de graves com autoridade. Se o seu braço errar por um milímetro, a cidade inteira vai ouvir a falha. O trombone exige brio, exige postura e, acima de tudo, respeito por quem está ouvindo na calçada.
Eduyr olhava para os ensinamentos e as mãos calejadas do mestre Sebastião guiando a vara com a leveza de quem desenha no vento. Foi sob essa escola de gigantes que a base de Eduyr nos metais pesados se consolidou. Aprender com o melhor profissional daquela era deu ao atual maestro a têmpera necessária para liderar o projeto de renovação atual.
Hoje, quando mestre Sebastião é lembrado na sede da F2J ou quando seu nome é evocado entre as estantes, há um sentimento de orgulho que preenche o peito de cada instrumentista. O olhat atento dos meninos da escolinha de música olham para a trajetória daquele mestre que eles não conheceram, mas sabem que seus 89 anos e compreendem o tamanho da responsabilidade que carregam nas mãos. Quando o naipe de trombones da 2 de Janeiro executa as contra melodias potentes dos dobrados tradicionais, o som que rasga o ar de Canavieiras é o eco direto do ensinamento de Sebastião. O canela seca que ele domou e transmitiu continua vivo, vibrando forte na identidade cultural do seu povo.