Falar sobre o mestre ou o maestro Cosme Pinho é evocar uma das eras mais bonitas, longevas e respeitadas da história do Filarmônica Grupo Musical 2 de Janeiro (F2J). Durante décadas, ele esteve à frente da instituição, não apenas conduzindo a batuta com maestria, mas dedicando sua própria existência para garantir que a música tradicional de Canavieiras nunca silenciasse. Para Mestre Cosme, a filarmônica não era apenas um compromisso ou um trabalho; era o seu maior prazer, a sua paixão vital e o palco onde ele escolheu deixar sua marca no mundo, a grande marca de sua gestão e liderança foi a generosidade pedagógica. Mestre Cosme Pinho tinha um olhar clínico para os novos talentos e passava tardes inteiras ensinando as primeiras notas, a leitura das claves e a postura correta para os jovens que batiam à porta da filarmônica. Ele formou a base, o meio e o topo de toda uma geração de grandes músicos que hoje sustentam a tradição cultural da cidade.
Dentro dessa vasta árvore genealógica musical que ele cultivou, houve raras e notáveis exceções de músicos que beberam de outras fontes antes de cruzarem seu caminho — como o hoje maestro Eduyr Pereira da Silva, que teve sua base sólida moldada pela célebre escola do mestre Donaldson Cháchá, o eterno e querido Mestre Dondonga da Lyra do Commercio. No entanto, a grandeza de mestre Cosme residia exatamente no respeito mútuo entre essas grandes linhagens da música baiana. Sua batuta firme, seu ouvido apurado e seu amor incondicional pela F2J pavimentaram a estrada para que a renovação de hoje pudesse caminhar com orgulho e altivez.
História: o mestre e o prazer de ver a música nascer
Para o mestre Cosme Pinho, o relógio da vida não funcionava com horas e minutos, mas sim com compassos, tempos e contratempos. Quem passava pela sede da Filarmônica 2 de Janeiro durante as décadas em que ele regeu aquela casa cansou de ver a mesma cena: o maestro sentado à sua mesa, sob a luz fraca de uma luminária, revisando partituras antigas ou pacientemente desenhando uma escala musical para um aluno que recém havia aprendido a segurar o instrumento.
Havia um brilho único nos olhos de Mestre Cosme quando o salão de ensaios estava cheio. O cansaço das obrigações diárias parecia desaparecer no instante em que ele subia as escadas da sede. Ali dentro era o seu refúgio, o seu maior contentamento. Ver um menino da comunidade, que muitas vezes não tinha grandes perspectivas, dominar a embocadura e tirar um som limpo de um bombardino ou de uma clarinete era o prêmio que alimentava a sua alma.
— O som da 2 de Janeiro precisa ter alma, meus filhos — costumava dizer ele aos mais novos, com sua voz que misturava a firmeza de um comandante com o carinho de um avô. — Não me deem apenas notas certas. Me deem o sentimento que faz a cidade parar para nos ouvir passar.
Mestre Cosme tinha um orgulho imenso de cada pupilo que saía de suas mãos direto para a farda oficial da banda. Ele também observava com profundo respeito aqueles que vinham de outras importantes escolas da região. Sabia reconhecer o toque e a disciplina que rapazes como o jovem Eduyr traziam da escola de Mestre Donaldson Cháchá, o icônico Mestre Dondonga da Lyra. Cosme entendia que, no final das contas, todas as correntes musicais de Canavieiras se uniam para desaguar no mesmo mar: a preservação da identidade cultural do seu povo.
Os anos se passaram, os cabelos de Mestre Cosme branquearam e o tempo acabou exigindo que ele passasse a batuta adiante. Mas o prazer que ele sentia ao ver a filarmônica tocar nunca deixou aquele prédio. Hoje, quando o atual maestro Eduyr ergue os braços para reger a nova renovação e alguns veteranos sustentam os acordes com perfeição, o espírito meticuloso e apaixonado do mestre Cosme Pinho sorri nas sombras do salão que enaltece pois hoje tem o seu nome, ele faz parte do projeto do presidente, que conduz em parte seu legado está vivo em cada sopro, em cada retreta e na eternidade de uma casa que ele amou acima de todas as coisas.