Existem memórias que o tempo não apaga e para quem lembra de Sulino como era conhecido a história não apagará, sorrisos que continuam a iluminar a sede de uma instituição mesmo anos após terem se despedido do plano físico. Gersolino Barbosa foi uma dessas almas raras e luminosas que deixaram uma marca indelével no filarmônica Grupo Musical 2 de Janeiro (F2J), atuando como caixista, ele fazia parte do coração rítmico, da vibração e a pura expressão da vivacidade que define a alma das bandas de música da Bahia aqui do extremo sul da Bahia. Gersolino ou Sulino não era apenas um músico técnico; ele era o equilíbrio perfeito entre o rigor que a percussão exige e a descontração que une uma filarmônica. Seu toque na caixa de guerra trazia a cadência exata que impulsionava os dobrados pelas ruas de Canavieiras, mas era a sua presença humana, o seu carisma e o seu bom humor contagiante que verdadeiramente contagiavam os colegas de farda. Ele transformava ensaios exaustivos em momentos de leveza e celebração.
Infelizmente, o ritmo de sua caminhada terrena foi interrompido de forma abrupta por um trágico acidente no ano de 2011. A perda de Gersolino abriu uma lacuna imensa e vestiu a F2J de luto, mas a dor do adeus deu lugar a uma profunda gratidão pelo tempo compartilhado. Hoje, falar de Gersolino Barbosa na 2 de Janeiro não é evocar a tristeza, mas sim celebrar a alegria, a amizade e o som brilhante que ele deixou ecoando nas paredes da centenária casa e no coração de cada músico que teve a honra de marchar ao seu lado.
História: o ritmo do sorriso que ficou eterno
Se você fechar os olhos durante um ensaio de rua da Filarmônica 2 de Janeiro, poderá ouvir o repique seco, alegre e perfeitamente compassado de uma caixa de guerra que insiste em não silenciar na memória da cidade. Era o toque de Gersolino Barbosa. Quem conviveu com ele lembra-se de que Gersolino parecia trazer o sol dentro do peito. Nos dias em que o cansaço pesava sobre os ombros dos músicos ou quando um arranjo novo parecia difícil demais de encaixar, bastava um olhar para a fileira da percussão. Lá estava ele: os olhos atentos na partitura, as baquetas posicionadas com precisão, mas com aquele sorriso largo no rosto que dizia, sem palavras, que tudo daria certo.
Gersolino tinha o dom do equilíbrio. Sabia o momento exato de exigir seriedade no ensaio, mantendo a afinação e o tempo da banda na ponta dos dedos, mas também sabia ser o primeiro a soltar uma piada leve na hora do intervalo, desarmando qualquer tensão. Para ele, a filarmônica era uma extensão de sua própria alegria de viver. Tocar na 2 de Janeiro não era uma obrigação; era a sua festa diária. No ano de 2011, quando o destino traçou um caminho inesperado e doloroso, silenciando suas baquetas em um trágico acidente, a filarmônica chorou. Canavieiras inteira sentiu o baque daquele silêncio repentino. Foi um ano difícil, de reaprender a caminhar sem aquela cadência tão familiar e querida.
No entanto, o tempo, que é o mestre dos curativos, mostrou aos músicos que Gersolino não havia partido por inteiro. Nas tardes de sol, quando os jovens da renovação pegam as caixas para aprender os primeiros rudimentos, os veteranos olham e sorriem. Eles enxergam ali a herança de Gersolino. A alegria com que ele vivia a música tornou-se uma espécie de cartilha invisível na instituição.
Quando a banda saia em cortejo e a percussão anunciava a entrada do dobrado, o ritmo forte e alegre que ganhava as ruas carregava a essência de um grande componente. Ele se tornou eterno na F2J não pela ausência, mas pela presença constante de sua luz, cada repique de caixa na 2 de Janeiro é, e sempre será, um tributo ao seu sorriso.