Há trajetórias que florescem justamente quando as políticas públicas e o amor à arte se encontram para transformar realidades. A caminhada de Paloma Guimarães no universo da música é um fruto maduro desse casamento. Exímia clarinetista do filarmônica Grupo Musical 2 de Janeiro (F2J), Paloma iniciou seus estudos através do transformador projeto Musicart, em 2009 — uma época em que a centenária instituição colhia os louros de ter se tornado, em 2008, um Ponto de Cultura reconhecido pela SECULT/BA.
A entrada de Paloma no projeto em 2010 marcou o início de uma relação profunda com o clarinete. Instrumento de palheta que exige sensibilidade, precisão e uma respiração controlada, o clarinete encontrou nas mãos de Paloma a dedicação necessária para dar voz aos contra-cantos emocionantes e às harmonias ricas que dão o corpo e a identidade às marchas e dobrados tradicionais. Ao longo dos anos, Paloma Guimarães deixou de ser apenas a menina que descobria as primeiras notas no projeto social para se tornar uma musicista madura e respeitada dentro das fileiras da F2J. Sob a regência do maestro Eduyr Pereira da Silva, ela personifica o sucesso dos investimentos na formação musical de base: uma artista que traz na bagagem a gratidão de ter sido acolhida por um ponto de cultura e, no presente, a responsabilidade de manter o som das madeiras brilhando intensamente nas retretas de Canavieiras.
História: o som que nasceu de um legado
As chaves de prata do clarinete brilhavam sob a luz que entrava pelas janelas da sede da Filarmônica 2 de Janeiro. Paloma Guimarães passava a palheta pelos lábios, preparando-se para o ensaio, enquanto olhava para os novos alunos que chegavam timidamente com seus cadernos de teoria debaixo do braço. A cena a fez viajar no tempo, direto para o ano de 2010.
Ela se lembrou perfeitamente do burburinho que tomava conta da cidade quando a filarmônica havia sido chancelada como Ponto de Cultura através do projeto Musicart. Para uma jovem que olhava aquele movimento de fora, a música parecia um sonho distante, reservado apenas aos grandes mestres. Mas o projeto abriu as portas, quebrou as barreiras e colocou em suas mãos o primeiro clarinete.
No início, dominar a embocadura e fazer o ar virar música parecia um desafio gigante. Mas Paloma persistiu. Cada ensaio no contraturno da escola, cada puxão de orelha pedagógico e cada nota conquistada foram moldando não apenas a musicista, mas a sua visão de mundo. Ela entendeu que o clarinete não era apenas um tubo de madeira com chaves; era a sua voz na comunidade.
— Pronta para liderar o naipe hoje, Paloma? — a voz do maestro Eduyr a trouxe de volta ao presente. O maestro a observava com o orgulho de quem acompanhou cada passo daquela evolução desde os tempos do Musicart.
Paloma sorriu, ajustando o instrumento no apoio do polegar.
— Sempre pronta, maestro. Olhando para essa meninada chegando hoje, eu lembro de mim em 2010. A gente percebe que o projeto não ensinou só a tocar, ele mudou a nossa vida.
— Esse é o verdadeiro papel de um ponto de cultura, Paloma — respondeu o maestro, antes de assumir o pódio. A música é uma corrente. Alguém estendeu a mão para você lá atrás, e hoje o seu som serve de espelho para eles. Quando o maestro Eduyr ergueu os braços e deu o comando, o clarinete de Paloma Guimarães liderou a introdução do dobrado com uma doçura e uma firmeza admiráveis. O som límpido, cheio de alma e história, preencheu a sala de ensaios e ganhou as ruas de Canavieiras. Era a prova viva de que o projeto plantado anos atrás continuava dando os frutos mais bonitos da cultura baiana.
A história da F2J como Ponto de Cultura ganha ainda mais vida com a sua trajetória Paloma!