A música possui uma força transformadora capaz de abrir portas, moldar carreiras e definir o destino de homens de valor. A trajetória de Ubiratan Pereira da Silva é um testemunho vivo dessa premissa. Exímio instrumentista, Ubiratan dominou a trompa um dos metais mais complexos, imponentes e que exige maior controle de sopro e percepção de afinação em toda a família dos metais de uma banda.
Foi justamente através da solidez e da dedicação aos seus estudos musicais de base que Ubiratan encontrou o passaporte para expandir seus horizontes, ingressando nas fileiras do Exército Brasileiro, instituição onde serviu com retidão e disciplina. Após cumprir sua missão nas Forças Armadas, ele retornou à sua terra natal e ingressou na Polícia Militar do Estado da Bahia (PMBA). Na corporação, Ubiratan uniu suas duas grandes vocações: a segurança pública e a arte, passando a integrar o corpo musical da gloriosa Banda de Música da PMBA, onde sua trompa preencheu com brilho os eventos e solenidades institucionais.
Irmão de sangue do atual maestro e presidente da Filarmônica Grupo Musical 2 de Janeiro (F2J), Eduyr Pereira da Silva, a ligação de Ubiratan com a associação transcende o parentesco e se consolida na história da salvaguarda cultural. No ano divisor de águas de 2024, Ubiratan foi uma peça fundamental nos bastidores, doando sua experiência e esforço na reconstrução e restauração da filarmônica, ajudando a erguer a estrutura física e institucional para a nova era de conquistas. Hoje, orgulhosamente aposentado da PMBA, Ubiratan Pereira da Silva desfruta do descanso merecido, deixando seu nome eternizado como o músico da farda, o irmão da trincheira cultural e o eterno trompista da nossa história.
História: a linha de frente entre o sopro e o dever
Há uma precisão militar que acompanha todo grande trompista, e com Ubiratan Pereira da Silva nunca foi diferente. Quem o assistia concentrado, segurando a trompa com a postura firme de quem conhece a responsabilidade de cada compasso, compreendia que a música e a disciplina caminhavam lado a lado em sua vida. Aquelas horas dedicadas a decifrar as complexas partituras de trompa na juventude pavimentaram a estrada que o levou a marchar sob o pavilhão do Exército Brasileiro.
A farda mudou quando ele retornou à Bahia para servir à Polícia Militar, mas a essência do músico permaneceu intacta. Sentar-se nas estantes da Banda de Música da PMBA era o seu porto seguro, o lugar onde o policial dava espaço ao artista, levando beleza e ordem através do som para os quatro cantos do estado. A trompa de Ubiratan tornou-se sinônimo de precisão e brio técnico.
Os anos de serviço na segurança pública se cumpriram, a aposentadoria na PMBA chegou, mas o chamado do sangue e da cultura falou mais forte. Em 2024, quando a Filarmônica 2 de Janeiro enfrentou um de seus momentos mais desafiadores de reestruturação e restauração, o maestro Eduyr olhou para o lado e não encontrou apenas um vice-presidente ou um diretor; encontrou o próprio irmão pronto para a batalha.
Ubiratan assumiu a linha de frente da restauração em 2024. Com o mesmo rigor que aprendeu nos quartéis e a mesma paixão que dedicava à trompa, ele ajudou a organizar o arquivo, a recuperar o espaço e a dar o suporte administrativo e moral de que Eduyr precisava para que a F2J não silenciasse. Era o encontro perfeito da família Pereira da Silva em prol do patrimônio de Canavieiras.
— Ter o Ubiratan ao meu lado na trincheira de 2024 foi a certeza de que a nossa missão era abençoada — costuma relembrar o maestro Eduyr, com um orgulho que emociona. — Ele trouxe a disciplina da PMBA, o amor da infância pela música e o abraço de irmão no momento em que a 2 de Janeiro mais precisava de alicerce. Hoje, em sua merecida aposentadoria, Ubiratan acompanha os ensaios gerais na sede com o olhar sereno de quem cumpriu o dever. Quando o naipe de metais da F2J ataca com potência os dobrados tradicionais, a vibração que corre pelo salão restaurado traz consigo o suor, o carinho e o sopro histórico de Ubiratan Pereira da Silva — o soldado da música que ajudou a garantir que a sinfonia de sua terra continuasse ecoando para o futuro.